Grupo de evangélicos brasileiros traz sua cartilha política para Portugal


No próximo domingo, Portugal irá às urnas, e um grupo transatlântico de líderes cristãos uniu-se para fazer campanha em favor do Alternativa Democrática Nacional (ADN).

O pequeno partido — fundado em 2014 e que nunca ocupou um assento na Assembleia da República, o parlamento português — tem chamado a atenção da nação por minimizar a COVID-19 e culpar os EUA pela guerra na Ucrânia. Mas as suas posições pró-vida, em defesa da liberdade religiosa e contra a legalização das drogas atraíram um apoio significativo dos evangélicos, grande parte dele vindo de brasileiros — imigrantes e os que possuem cidadania portuguesa — ansiosos para usar sua cartilha política contra o antigo colonizador.

“Eu quero chamar a atenção de todas as lideranças evangélicas de Portugal, bem como de todos os cristãos, para que apoiem e votem no ADN nas eleições de 10 de março”, disse o político brasileiro e pastor pentecostal Marco Feliciano, em um vídeo no YouTube postado por adeptos do ADN, há várias semanas atrás. “É chegada a hora do povo que ama a Bíblia Sagrada se levantar e decidir por um país melhor, um país que vai proteger e promover os valores judaico-cristãos.”


Feliciano é um dos muitos representantes dos brasileiros nas câmaras legislativas que tornaram sua identidade evangélica uma parte integrante de sua política. Fundador da Catedral do Avivamento, igreja neocarismática com ligação não muito estreita com as Assembleias de Deus, ele é um dos 204 deputados (dos 513 da Câmara dos Deputados do Congresso brasileiro) que integram a bancada evangélica, também conhecida como Frente Parlamentar Evangélica.

Esta coligação apoia a manutenção da ilegalidade do aborto e das drogas, bem como outras questões que são importantes para o público evangélico. Nem todos desse grupo professam a fé evangélica; cerca de metade deles está lá para sinalizar esses posicionamentos a seus eleitores. Embora o bloco tenha sido criticado por dar apoio incondicional ao ex-presidente Jair Bolsonaro e não tenha apoio unânime nem mesmo entre os evangélicos, seus integrantes continuam em grande parte a ganhar as eleições e a conquistar novos apoiadores.

“Nos temas que são mais caros aos cristãos, o nosso grupo tem feito um trabalho muito preciso”, disse Feliciano, em uma declaração por escrito à CT. Esse sucesso encorajou muitos a voltar seu foco para locais onde a diáspora possa ter influência política.

Em função de um acordo de 1971, os imigrantes brasileiros e portugueses em qualquer um dos dois países podem receber quase todos os direitos políticos que possuem os nacionais, incluindo o direito de votar em eleições nacionais. Em particular, há muitos evangélicos, em ambos os países, que querem agora iniciar uma coligação parlamentar evangélica própria. Para estes, o primeiro passo é votar no ADN.

Valdinei Ferreira, sociólogo e professor da Faculdade de Teologia da Igreja Presbiteriana Independente de São Paulo, vê esse fenômeno como um “desdobramento natural” da presença brasileira em Portugal.

“O Brasil criou uma infraestrutura própria das instituições evangélicas. Com isso, quando se tem uma presença expressiva de brasileiros, é natural que eles tentem reproduzir seus modelos”, afirma. “Essa ramificação política acaba sendo um efeito colateral.”

Estudioso da transnacionalização das igrejas brasileiras, Ferreira observa que “essa conversão da identidade religiosa em identidade política é relativamente nova no contexto brasileiro”.

“Um dos primeiros deputados evangélicos eleitos no Brasil foi Lauro Monteiro da Cruz, na década de 1950”, lembra Ferreira. “Ele foi eleito com base na carreira de médico. Sua identidade religiosa não era tida como algo que pudesse beneficiar suas credenciais. Hoje, porém, as pessoas se apresentam como ‘evangélicas’, e isso já basta para concorrer às eleições”.

À medida que brasileiros se mudam para o exterior, eles levam consigo essas práticas. “Esse modelo de um bloco evangélico faz alianças com outras faces do conservadorismo político, o qual se tornou uma questão transnacional”, diz Ferreira.

Um por cento

Os portugueses geralmente realizam eleições para o Parlamento a cada quatro anos, mas as eleições antecipadas deste ano seguem-se à saída abrupta do Primeiro-Ministro Antônio Costa, que se demitiu devido a acusações de corrupção contra dois de seus ministros.

Se o ADN obtiver 1 por cento dos votos, provavelmente será, pela primeira vez, representado por um deputado. Nas eleições parlamentares de 2022, o partido obteve 10.911 votos, ou seja, 0,2 por cento do total de eleitores do país. (Na época, o partido precisaria de 70.000 votos para ganhar um representante.)

Este ano, um cenário um pouco diferente pode estar se configurando. Um painel com as intenções de voto, conduzido pela CNN Portugal, sugeriu que o ADN receberia 1 por cento dos votos, uma oscilação possivelmente explicada pelos esforços de quase duas dúzias de pastores locais, todos eles brasileiros ou com ligações estreitas com o Brasil.

Paulo Nunes, pastor da Assembleia de Deus Missão Lusitana, coordena o grupo. Nascido em Torres Novas, cidade a cerca de 110 quilômetros ao norte de Lisboa, regressou a Portugal em 2021, após 30 anos na Suíça.

Nunes tornou-se cristão em Zurique e começou a frequentar uma igreja da Assembleia de Deus de língua portuguesa, liderada por brasileiros e afiliada a um dos principais ramos das Assembleias de Deus no Brasil, o Ministério Belém (com sede em São Paulo). Ele foi ordenado em 1996.

Nunes admite que, até recentemente, sabia muito pouco sobre a política de Portugal.

“Eu estava por dentro da política brasileira. Eu ficava sabendo do que estava acontecendo em Portugal, mas estava mais informado sobre a realidade brasileira”, afirma. “O brasileiro é determinado na luta por seus princípios, por aquilo em que acredita.”

Mas outros evangélicos portugueses não consideram este modelo de engajamento político tão atraente.

No dia 20 de fevereiro, a Aliança Evangélica Portuguesa (AEP) emitiu um comunicado aconselhando os cristãos a exercerem o seu direito de voto, mas também os alertando a evitarem transformar as igrejas em palco de campanhas eleitorais.

“Essa participação legítima não pode servir para a instrumentalização das comunidades e organizações de âmbito religioso e espiritual”, afirmou o grupo evangélico, “muito menos deve ser usado o púlpito para a mobilização em torno de projetos político-partidários específicos”.

A AEP enviou outro documento às igrejas-membro sobre um vídeo, que trouxe à tona a aliança no contexto de uma reunião entre líderes religiosos e representantes do ADN.

“A este propósito devo esclarecer que, tendo sido convidado a estar presente no referido ato, enquanto presidente da Direção da AEP, a minha ausência não se deveu a qualquer indisponibilidade ou incompatibilidade de agenda”, escreveu Timóteo Cavaco, “mas sim à manifesta e resoluta convicção e entendimento de que a AEP não poderá estar associada a esta ação nem a qualquer outra de natureza político-partidária”.

Cavaco foi procurado pela CT para comentar ambos os documentos, mas declinou do convite e afirmou que a entidade só irá abordar o assunto após a votação de 10 de março.

Mas Nunes — que está na lista do partido ADN e pode tornar-se deputado, se o grupo conseguir um assento no Parlamento — diz que o voto dos imigrantes evangélicos brasileiros pode ajudar a mudar o país para sempre.

“A bancada parlamentar evangélica será uma força motivadora”, afirma.

Feliciano enviou um comunicado por escrito à CT, dizendo que gravou o vídeo para abordar temas como liberdade religiosa, descriminalização das drogas e aborto. “Na falta de legisladores que se contraponham, essas pautas têm sido aprovadas à revelia do que pensa a sociedade conservadora. Portugal precisa de representantes conservadores no Legislativo!

Egito e o povo de Israel?

As mudanças demográficas podem, em última análise, limitar a influência da AEP sobre a igreja evangélica em Portugal. De acordo com o censo de Portugal de 2021, existem 187.000 evangélicos no país, ou seja, 2,1 por cento da população com mais de 15 anos (a população total é de 10,3 milhões). Isto é mais que o dobro de 2011, quando a população evangélica era de 75.000 pessoas, ou seja, 0,8 por cento da população.

Esse crescimento é atribuído, em grande parte, à imigração — um relatório do ano passado revela que existem 781 mil estrangeiros vivendo em Portugal, um contingente que tem aumentado constantemente nos últimos 7 anos. Destes, quase 30 por cento são brasileiros. Em outras palavras, quase 4 em cada 10 brasileiros que vivem no país são hoje evangélicos.

Num país predominantemente católico, porém, a mera presença de estrangeiros em igrejas evangélicas pode parecer suspeita. Nos últimos anos, tem havido escândalos em torno de líderes religiosos envolvidos em adoções ilegais de bebês e questões de imigração.

Antonio Rodolpho mudou-se do Brasil para Portugal como missionário, há quase 30 anos. Ele realizou workshops em diversas igrejas, em todo o país, para ajudar líderes a lidar com um ambiente cada vez mais multicultural, o qual inclui brasileiros e cidadãos de países de língua portuguesa na África (Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau, Angola e Moçambique).

“Algumas igrejas estavam prestes a morrer, mas renasceram com a chegada dos imigrantes”, disse ele.

Às vezes, porém, as coisas não transcorrem tão bem assim. Rodolpho compara a relação dos crentes brasileiros e de seus pares portugueses com o Egito e o rápido crescimento do povo de Israel, em Êxodo 1 — a comunidade cresceu tão rápido que seus anfitriões começaram a temer que pudesse haver uma tomada de poder.

“Quando há uma ou duas famílias brasileiras é bonito, é exótico”, disse ele. “Quando este grupo cresce, porém, surge o medo — e se eles assumirem o controle da igreja?”

Para muitos líderes da igreja, isso não é uma preocupação. Joel Resende, pastor português da Igreja Metodista Wesleyana da Gafanha de Nazaré, uma comunidade de pescadores a 260 quilômetros ao norte de Lisboa, diz que na sua igreja há uma frequência média de 100 pessoas por culto — 40 portugueses, 30 brasileiros e 30 guineenses da Guiné-Bissau. É melhor assim, diz ele, “do que ter uma igreja só de portugueses e com apenas 40 pessoas”.

Por ora, mesmo com o apoio dos imigrantes brasileiros, as chances de um bloco evangélico tomar conta do espaço político português são muito pequenas. Porém, o professor Ferreira alerta que o fator mobilização dentro das igrejas poderia dar maior peso ao voto evangélico.

Uma vez que o voto não é obrigatório em Portugal, uma onda de apoio conclamada por líderes religiosos poderia levar a uma maior participação nas eleições e favorecer um grupo que se apresenta como um outsider na política.

“Mesmo que eles não sejam numericamente fortes, ainda podem causar muito barulho.”

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